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à Fabíola Zanotelli
Morreu esta noite uma estrela
Morreu
E a noite pareceu mais longa
O sol em luto demorou-se a vir
E um colégio, em silêncio, parou um minuto
Muitos perguntam, muitos comentam
“Mas ela? Tão jovem! Qual era o problema dela?”
Outros reclamam da rapidez
Com se a morte marcasse hora
Ou desse aviso prévio: “Como pode?”
“A semana passada a vi passar por aqui!”
“Eu a vi passar, estava bem!”
“Eu não posso acreditar”
Hoje, há um silêncio sob essas arcadas
Hoje
Um choro velado toma o Casarão
Mas triste é o destino dos mestres
De almas fúteis como as nossas
Que não se abalam, que não calam
E que lágrimas não derramaram
Mas só uns poucos que nela tinham
Mais que uma mestra, uma amiga
Que perderam não uma matéria
Mas uma amizade
Que perderam não um dia de aula
Mas uma vida.
18/06/2001
Elogio Epicuresco à Vida Fútil e aos Prazeres
Deus nos mostra um diário paraíso
Nos momentos mais fúteis desta vida
Ao vê-los não precisas ter juízo
Nem tampouco ter a fé enaltecida
Há um certo paraíso que é terreno
A todos os discípulos de Epicuro
Onde a Dor (e ter Trabalho) é o veneno
E o combate e a vida árdua é fardo duro
Bem aquele que da honra tira as lentes
E se deixa abandonar pelo instinto
Vê então na vida pura as mais dementes
Idéias. Sendo assim que agora eu sinto
A vida. Verás nada caso tentes
Se o contrário te disser é porque minto.
22/03/2001
Cartas à Sofia II
Sinto-me tomado de um remorso que corrói a alma como ferrugem. Esse remorso tardio – a bem da verdade, não tão tardio assim – vindo não sei de onde, querendo não sei o quê, entrou-me no peito como um velho conhecido cuja companhia nos incomoda, mas, indiferente a nossos tormentos, sempre arranja assunto para mais um “dedinho de prosa”.
Creio estar tomando consciência de algo visível para todos os outros ao meu redor: meus ideais ruíram. Se não de todo, ao menos em sua maioria. Volto a afirmar que os ideais são como flores de papel que o vento leva nos dias de tormenta. Explico-me. Os ideais são muito bonitos, mas, quando a situação complica e estamos com a corda no pescoço, logo eles vão embora.
Temo estar afastando-me de um caminho que, fora ideais e besteiras como eles, julgo correto, ou ao menos saudável. Temo por mim, pelos que me amam, pelos que me odeiam (sim, pois nem mesmo o ódio prescinde de um objeto) e principalmente por minha arte. Que será de meus poemas se não puder escrevê-los?
No entanto, corrijam-me os especialistas, vida saudável não combina com a arte. Parece-me que os licores e os vapores dos narguilés são tão necessários à criação quanto a pena, o papel, os amores. Os românticos morriam cedo devido a sua vida boêmia e, mesmo um século depois, os modernistas mantinham os mesmos costumes e se viveram mais agradeçam a nossa medicina mais evoluída, não ao seu estilo de vida.
Talvez, eu esteja só um pouco melancólico.
Talvez,
eu esteja só envelhecendo.
01/03/2001
Soneto Transcendental
Eu troco uma paixão por uma vária
Existência indagativa e poética
Pois na vida nada vale minha ética
Se de todo em beleza ela for ária
Entre os meus eu já sou chamado pária
Por ter alma e natureza toda eclética
Encantei dos amores a cinética
Encantei, por de todo ela ser vária
E assim termina, assim se dá por finda
Minha vida, minha sina e certeza
Das quais fiz uma existência toda linda
É o fim, mas minha morte não é ainda
Pois quem vê, como eu vi, vital beleza,
Eterno, noutro plano, vive ainda.
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