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Ó Deus, dê-me das mulheres que amei
A beleza: a colocarei em aquarela
E com as cores de todas pintarei
Uma outra que é de todas a mais bela

Se é ela mais pura, eu disto nada sei
Tampouco se a virtude é toda dela
Da poesia nada vale o rei
Sem a forma que ele coloca nela

Pois ter puro coração é necessário
Também ter elevado pensamento
Mas não basta por si só o sentimento

Pois neste mundo sob o firmamento
Uma lei fez o humano amor ser vário
Sentimento e diz o belo ser primário.

16/04/01

Em altos cantos cantam os poetas
Seus amores e medos malogrados
E eles cantam de tal forma exaltados
Que encantam até mesmo os mais ascetas

Em outro canto em formas não tão retas
Também cantam com paixão os iletrados
Nem por rima, nem por verso são regrados
Mas alcançam com ardor as suas metas

Pois Camões que era gênio e sapiente
Soube louvar sua Dinamene mas
Não realizou o amor; se foi silente

Mais entendem uma moça e um rapaz
Do amor que um poeta; o sabe a gente:
É na cama que o real amor se faz.

15/04/01

Elogio Epicuresco à Vida Fútil e aos Prazeres

Deus nos mostra um diário paraíso
Nos momentos mais fúteis desta vida
Ao vê-los não precisas ter juízo
Nem tampouco ter a fé enaltecida

Há um certo paraíso que é terreno
A todos os discípulos de Epicuro
Onde a Dor (e ter Trabalho) é o veneno
E o combate e a vida árdua é fardo duro

Bem aquele que da honra tira as lentes
E se deixa abandonar pelo instinto
Vê então na vida pura as mais dementes

Idéias. Sendo assim que agora eu sinto
A vida. Verás nada caso tentes
Se o contrário te disser é porque minto.

22/03/2001

Crítica à Providência pelo Contraditório Espírito Humano

Oh, meu Deus, que da pura luz celeste
E da terra que já foi a pedra dura
Fez vivente a sua mais vil criatura
E plantou-a no incriado céu terrestre

Mas que inspiração foi essa que tiveste
Ao dar a humana fera sua “natura”
Causar pode no espírito ruptura
A junção instinto-amor que tu quizeste

E a almejada obra prima definhou
De fraco espírito e instinto abastado
Perdendo então a razão que ela sonhou

Pois não pode num só corpo lado a lado
Manter a humana carne e o que restou
De um celeste espírito divinado.

19/03/2001

Sharon

à Sharon

Há um canto em meio a tantos outros cantos
Que não deixa por dor ser alcançado
Esse canto de tanto ouvir meus prantos
Já se faz mais um amigo lado-a-lado

Sendo amigo ele cobre com seus mantos
A tristeza que o amor tem me causado
Traz alegria e leva os sonhos tantos
Que deixaram o meu coração cansado

E esse amigo eu busquei no feminino
Sexo por ter “natura” toda em graça
E um bem para minha alma maior faça

E um poema para ela assim termino
O amor, a vida fútil, tudo passa,
Mas a amizade dura e o peito enlaça.

09/03/2001

Réquiem à Beleza

A aquela que por simples semelhança
Lembra muito o envoltório da amada
Seus momentos de raiva ou temperança
São os mesmos daquela outra alma cantada

Dessa alma o poeta não se cansa
De fazer coisas líricas, toada
Mais bela eu já canto na esperança
De alcançar no coração a linda fada

Se um dia Deus sorrir para minha alma
Por graça eu tornar-me merecedor
De maior feito que ir ao Bojador

Manterei no coração a maior calma
Expulsarei de meu peito essa dor
Gozarei num corpo livre um novo amor.

08/03/2001

Pseudo

Quem me dera ter uma certa atenção
Dos olhos tão brilhantes de uma dama
Meu peito, então, encher-se-ia de emoção
E seu calor viraria uma chama

Esses olhos que me encantam o coração
Pelos quais o meu peito todo inflama
Tão cruéis, pois nenhuma chance dão
Ao poeta que profundo e só os ama

Pois ela tem nos olhos esmeraldas
Por sua pele e sua boca é toda bela
E que são pelas ninfas invejadas

Se eu penso num amor eu penso nela
Minha pena e minha lira conquistadas
Foram. Alma e emoção são todas dela.

02/03/2001

1927-1953

A vós que se dizeis mais socialistas
Que qualquer socialista nesta terra
Saibam pois que não se pode em meio a guerra
Decidir nas correntes populistas

Pois as reformas de antes já são vistas
Nos braços do que cegamente ferra
Os campos e, na fome, sede, encerra
Da verdade e da história suas pistas

Mas não descanse aquele que ainda canta
No peito a mais antiga das verdades
A quem a ditadura cega espanta

O destino vingará as mortandades
Pois a força maior já se levanta
E tomará a todo meio as cidades.

17/02/2001

Nota: 1927-1953 – período stalinista na Rússia

Soneto do Arrependimento

à minha consciência

Triste aquele que de vinho embriaga
Seus amores na mais doce ilusão
Vinho é água; a chama do amor apaga
Deixando só o triste e vago coração

Deus, errei, pois vi algum amor na praga
Que é a embriaguez rancorosa da paixão
O amor se foi; A beleza já é vaga
Solidão mata, despedaça a razão

Quisera ter a meu lado o retorno
Do amor que na loucura abandonei
Por um lúdico e fútil sonho morno

Perdão pelo pecado pedirei
Perderei de meu orgulho o adorno
E então por sobre a pena chorarei.

13/02/2001

La Bella Donna

A aquela que ao poeta pobre encanta
Eu dedico mais um tom de minha arte
Ontem distante e agora grande parte
Desta alma que de amá-la se espanta

O amor e agora já a beleza tanta
Devem ter um certo augúrio em Marte
Dela não pode ser o amor a parte
Nem mesmo ser de sua sombra a manta

Pois essa bela que ao poeta atordoa
“Bella Donna” saída desta tela
Encanta olhos; com pensamentos voa

Que seja pois o coração que é dela
Casa onde melodicamente soa
Das toadas do amor uma mais bela.

12/02/2001

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