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Por Entre a Bruma
à Carol
Aqueles olhos…
Ah… aqueles olhos…
Aqueles olhos que na noite penetraram
Que fizeram de mim reles poeta abandonado
Aqueles olhos “de poema transladados”
Aqueles olhos
Em meu peito enamorados
Por entre a bruma aqueles olhos feneceram
E de meu canto mais uma estrofe mereceram
Aqueles olhos que outro dono encontraram
São os mesmos olhos – em outro tempo, apaixonaram
Mas ela é toda
Toda olhos, seios, lábios
Toda pêlos, sonhos, medos
E só tê-la tornou-se o meu desejo
Mas o seu rosto, os seus olhos e o seu corpo
Que me encantaram e certo dia me envolveram
São apenas simples traços que morreram
E em meu quarto em sonhos tristes se perderam.
Laguna, 16/01/2001
Andrea Doria
O sol que agora me aparece
Já teria há muito aparecido
Se eu fosse aquele que conhece
Os segredos tão bem escondidos
Pois o espírito, que é de humana consciência,
Furtivamente, esconde seus anseios
Mas ninguém tem dos amores a ciência
Sem passar do amor pelos enleios
E o coração, esta vã e insana luz
Por certo fraca, por certo limpa e transparente
É guia imprópria que os passos meus conduz
Ao amanhecer depois de um simples sol poente.
Laguna, 19/01/2001
A um botão
És a mais rosa
Rosa dos rosais
És a mais bela
Uva dos parreirais
É tua boca origem
De todos os meus “ais”
Quero ter-te agora
E perder-te nunca mais.
Laguna, 10/01/2001
Mistura Fina
à Renato, Carolina B. e Fernanda B.
Esta noite saí com meus amigos.
Saímos sem rumo, sem destino,
Sem nada a ganhar – sem nada a perder.
Ficamos ali, nus, sem nada a esconder,
Sem virtude, sem pecado, sem mentir e sem sofrer.
Esse foi o momento mais sincero de nossas vidas.
Ali, por detrás da fumaça dos cigarros
E do cheiro de álcool que pairavam no ar,
Éramos nós mesmos, apenas nós mesmos,
E poderíamos erguer o mundo sozinhos.
Cantamos para a lua, num misto de disciplina e liberdade,
E nossas vozes ecoaram no deserto de nossas almas,
Mas agora… agora a música acabou.
As vozes uma a uma se calaram.
Restaram apenas alguns velhos veteranos
A relembrar as batalhas de outrora.
Um eco de adeus invade o coração,
E só agora nos demos conta de nosso erro.
Essas foram amizades de verão, amores de verão,
Escritas num misto de sangue e cinzas sobre a areia da praia.
Assim, dessa jornada rumo ao caos,
Trouxemos conosco lembranças surreas:
Lugares, garotas, histórias para contar,
Belezas de areia para ao vento soprar.
O destino está na mesa; as cartas, a jogar,
E como disse um amigo meu: “Só a história restará”.
Voltamos para casa, para a toca, para o lar.
Adeus às garotas, às lembranças, ao luar.
?/?/2000.
NOTA: “Mistura Fina” é o nome de um bar que existia em Laguna/SC no verão de 2000.

