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Por onde anda o glauco?
O Glauco, aquele das poesias,
Aquele que sentava lá no fundo,
Que não falava muito e ria pouco.
O Glauco, por onde anda?
Por onde anda o Glauco de todos os dias
O Glauco de todas as horas
O Glauco de todos nós
Aquele que sentou num banco um dia
E lá ficou sentado
Que não pensou na vida
Que não questionou a ordem
O Glauco que olhou para o sol e riu
Como se o visse pela primeira vez
(E realmente o via pois o Glauco
Que olhou ontem não é
O mesmo de hoje, nem o sol que Glauco via)

Diga pro Glauco se acaso o vires
Que passe lá em casa (tomemos um chá
Ou um chope se for o caso)
Diga pro Glauco que não se assuste
Estou diferente (um pouco mais triste,
Um pouco mais velho, um pouco mais só)
Mas ainda sei ver a metafísica das coisas simples

(Glauco me viu e juntos saímos
Juntos olhamos para o sol e rimos…)

28/05/2001

“Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso. Viver não é preciso.’” – Fernando Pessoa

Com essa frase, Fernando Pessoa inicia suas “Palavras de Pórtico”, uma nota publicada pela primeira vez na primeira edição do volume Fernando Pessoa – Obra Poética. Como esse é o primeiro post de meu blog, achei interessante utilizá-la igualmente como portal de entrada para o meu mundo da poesia. Contudo, talvez tal frase tenha uma amplitude ainda maior do que aquela que normalmente podemos perceber.

Fernando Pessoa

“Preciso” pode ser visto como sinônimo de “necessário”, tal qual o faz Pessoa, completando com a idéia de que “Viver não é necessário, o que é necessário é criar”. Por outro lado, podemos vê-la igualmente como a qualidade daquilo que possui precisão, exatidão. Uma rápida consulta ao dicionário nos mostra essa duplicidade:

preciso adj. 1. Exato; certo; rigoroso. 2. Necessário. (extraído de Minidicionário Luft – Ed. Ática)

Assim, reinterpretando a frase das Palavras de Pórtico, talvez a frase dos ditos navegadores ganhe maior conexão conosco nesses tempos em que as grandes navegações não mais se dão ao longo dos sete mares. Navegar é exato. Viver não é exato. Explico-me.

Na navegação (ainda que eu seja um bicho da terra e, portanto, tenha parcos conhecimentos na área), podemos efetivamente contar com instrumentos (bússola e astrolábio antes, GPS hoje) que permitem sabermos exatamente de onde viemos, onde estamos e para onde vamos com um enorme grau de exatidão, ainda que a única coisa que possamos divisar no horizonte sejam as nuvens da tempestade à caminho. Na vida, bem, quem dera tivéssemos algo semelhante… Assim, definitivamente, navegar é algo que pode ser feito de forma precisa, exata. Viver, na melhor das hipóteses, é intuição. Peço aqui que não induzam essa afirmação ao absurdo, pois, obviamente, ela não será verdadeira. Agora, aquele que me disser que consegue efetivamente prever seus dias tal qual um navegador planeja sua rota, sem estar mentindo, seja para mim, seja para si próprio, sinta-se à vontade para contestá-la.

Com essa idéia, reinterpreto uma outra frase que escrevi, inspirado em Pessoa, há alguns poemas atrás: “Escrever é preciso. Amar não é preciso.” Podemos medir em versos, sílabas, rimas, estilos e em outras tantas possibilidades os meus escritos. Qual a medida, contudo, que podemos usar para amar? Escrever pode ser algo exato. Amar, por outro lado, jamais será.

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