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à Fabíola Zanotelli
Morreu esta noite uma estrela
Morreu
E a noite pareceu mais longa
O sol em luto demorou-se a vir
E um colégio, em silêncio, parou um minuto
Muitos perguntam, muitos comentam
“Mas ela? Tão jovem! Qual era o problema dela?”
Outros reclamam da rapidez
Com se a morte marcasse hora
Ou desse aviso prévio: “Como pode?”
“A semana passada a vi passar por aqui!”
“Eu a vi passar, estava bem!”
“Eu não posso acreditar”
Hoje, há um silêncio sob essas arcadas
Hoje
Um choro velado toma o Casarão
Mas triste é o destino dos mestres
De almas fúteis como as nossas
Que não se abalam, que não calam
E que lágrimas não derramaram
Mas só uns poucos que nela tinham
Mais que uma mestra, uma amiga
Que perderam não uma matéria
Mas uma amizade
Que perderam não um dia de aula
Mas uma vida.
18/06/2001
Lágrimas do Adeus
Certo dia enquanto pela rua andava
Encontrei uma amiga que escondia
A um canto sua tristeza e chorava
E em soluços sem parar esmoecia
Eu por sua tristeza fui tocado
E meu andar pela rua eu parei
Fui então assentar-me a seu lado
E de um modo muito calmo perguntei:
“Que se passa, ó minha cara amiga,
Para estares tão sozinha a chorar
É acaso esta vida tua imiga
Ou então está Deus a maltratar?”
Ela então de um modo mui silente
Sua fronte para mim levantou
Pude ver sua dor, e consciente
Numa cantiga seu caso ela entoou:
“A vida foi para mim a flor mais bela
Só alegrias eu me lembro ter cantado
Quando à noite eu dormia, à janela
Eu ouvia o cantar de meu amado
“Tão felizes, eu com ele, ele comigo
Nos amávamos, e com ele um sonho tinha
Meu amado, além de amante, é amigo
Sua tristeza e sua alegria era a minha
“Todos que nos viam invejavam
O amor e a paixão que nos unia
Muitos deles também se perguntavam
Se amor tão grande eu merecia
“O amor em minha vida irradiava
Uma aura que em tudo o que eu via
A beleza eu sentia e contagiava
Ao meu redor numa corrente de alegria
“No entanto, quis destino que eu sofresse
Os males da distância e o veneno
Da vida num só gole eu sorvesse
A perturbar os espírito que era ameno
“Meu amado antes sempre a meu lado
E de quem a falta eu não conhecia
Mas caprichoso e vil humano fado
Nos separou. Para longe ele partia
“Assim como não há poeta sem poesia
Tampouco há amor sem o ser amado
Ele partiu, e com ele minha alegria
E a felicidade que ficava a meu lado
“Eu sem ele na tristeza vou viver
Como quem em sua alma sofre os danos
Nada resta para mim senão morrer
Em meu corpo de paixão e amor humanos
“Entendes tu, oh poeta inquisidor
Que se passa no interior desse meu peito
Já vai longe minha vida e essa dor
Vem agora assolar-me na agonia de meu leito”
Ao ouvir essa história eu senti
Nessa alma sua dor e eu chorei
Por todos desamores que vivi
E consolo para ela eu cantei:
“Mas não chores, ó minha cara amiga,
Sei que é dura a humana realidade
O amor e a paixão nos dão fadiga
E nem sempre a alegria é a verdade
“Nem por isso deves querer a morte
Nem tampouco chorar teu abandono
Da natureza quem está vivo sofre a Sorte
A flor que nasce na primavera cai no outono
“Hoje sentes no teu peito esta dor
Mas isso prova que teu corpo ainda vive
A esperança não morreu e o Amor
Quando é puro até à morte sobrevive.”
30/03/2001
Reinado
à Carol, quando se mudou para São Leopoldo
Se foi, já ido e partido
Se foi o sorriso, a alegria e a graça
Se foi o ombro amigo
O espírito enamorado
Se foi (se foi) o amigo mais ligado
Se foi (ao longe)
E vejo seu andar traçado
Nas linhas, entrelinhas,
Nas vidas e nestas páginas
Se foi (e fôra)
Um canto dos mais cantados
Se foi (ao longe)
Um amigo dos mais ligados.
?/?/2000
Apologias
à Carol
Vê?
As folhas no arvoredo farfalham.
O vento que as move não sabe disso
Nem se importa. Só sabe que tem de ir.
Na sua infindável via de ser,
Mover as folhas é só uma conseqüência.
O vento não sabe de onde vem
Nem para onde vai.
Sabe que no meio do caminho
Havia folhas
E elas se moveram quando ele passou.
Ele teria passado com ou sem as folhas.
Para ele foi só um atraso.
Que culpa tem ele delas estarem ali?
Que culpa tem ele delas terem se movido?
Que culpa tem ele se algumas delas caíram?
Que culpa tem ele se a árvore
Sem folhas
Morreu?
Assim são as coisas.
Às vezes, mesmo sem querer,
Cometemos crimes contra a vida.
Entramos na vida de alguém,
Acabamos com a sua tranqüilidade,
Bagunçamos, destruímos,
E quando finalmente somos tudo que ele ou ela tem
Seguimos em frente como o vento.
Sinto muito. É tudo o que tenho a dizer.
Sinto muito.
Minhas folhas caíram.
?/?/1999

