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Cartas à Sofia II

Sinto-me tomado de um remorso que corrói a alma como ferrugem. Esse remorso tardio – a bem da verdade, não tão tardio assim – vindo não sei de onde, querendo não sei o quê, entrou-me no peito como um velho conhecido cuja companhia nos incomoda, mas, indiferente a nossos tormentos, sempre arranja assunto para mais um “dedinho de prosa”.

Creio estar tomando consciência de algo visível para todos os outros ao meu redor: meus ideais ruíram. Se não de todo, ao menos em sua maioria. Volto a afirmar que os ideais são como flores de papel que o vento leva nos dias de tormenta. Explico-me. Os ideais são muito bonitos, mas, quando a situação complica e estamos com a corda no pescoço, logo eles vão embora.

Temo estar afastando-me de um caminho que, fora ideais e besteiras como eles, julgo correto, ou ao menos saudável. Temo por mim, pelos que me amam, pelos que me odeiam (sim, pois nem mesmo o ódio prescinde de um objeto) e principalmente por minha arte. Que será de meus poemas se não puder escrevê-los?

No entanto, corrijam-me os especialistas, vida saudável não combina com a arte. Parece-me que os licores e os vapores dos narguilés são tão necessários à criação quanto a pena, o papel, os amores. Os românticos morriam cedo devido a sua vida boêmia e, mesmo um século depois, os modernistas mantinham os mesmos costumes e se viveram mais agradeçam a nossa medicina mais evoluída, não ao seu estilo de vida.

Talvez, eu esteja só um pouco melancólico.

Talvez,
eu esteja só envelhecendo.

01/03/2001

Cartas à Sophia I

Escrevo-te porque padeço.
Padeço de um mal que chamam amor.
Um amor, vil, vago e vão.
Dói-me o peito numa ferida latejante
Ora a lembrar-me a traição,
Ora a rejeição.
Sinto a dor como quem sente o ferro em brasa
A cauterizar uma ferida aberta.

Minha dor não é orgulho.

Como pode ter orgulho o que não tem o amor da mulher amada?
Lamento, isso sim.
Lamento por ser vário,
Por enganar uma alma que nada fez para merecê-lo,
Por causar aflição do mesmo modo que me afligem
E lamento por novamente sujar os versos com tristezas.

Lamento,

A vida não é justa,

E ninguém disse-me que não era.
Há corações demais para o pouco amor do mundo,
E lágrimas demais para a vida que me resta.

Escrever é preciso.

Amar não é preciso.

Escrever e sofrer.

A Arte é tudo,
E o resto é nada.

23/02/2001

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