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Televisão em Preto-e-branco

Por justiça tomam iniqüidade
Por sabedoria tomam frieza
Por viver, fidelidade
Por luxúria tomam beleza
E os justos e os injustos
Sem caminho se vão
Caminhando lado a lado
O amor e a perdição
Essa é a justiça dos homens
Essa é a sua união
Uns morrendo de fome
Enquanto outros vêem televisão.

?/?/1999

Fim

Fim.
“Sonho de uma noite de verão”.
Será que Shakespeare sabia
O que realmente isso significa?
Bem, isso eu não sei.
Só posso dizer que o meu acabou.
Foi-se o sonho,
E, com um pouco de sorte,
Restaram as noites de verão.
Não posso negar, já sabia
Que, um dia, com alguém, aconteceria.
Não posso nem ao menos reclamar
Ou dizer que nunca passei por isso.
A verdade é que,
Por um tempo indeterminado,
Tentei esconder a verdade.
Parece que ela cansou de ficar escondida,
E agora, meus amigos,
O sonho acabou;
A chama morreu;
O vento passou;
E a árvore
Sem folhas
Re-
Nasceu.
Início.

?/?/1999

Meu Bem…

à Carol

Sabe
Estive pensando sobre certas coisas
(Ultimamente, tempo é o que não falta)
E decidi que você deveria saber disto.
Não fiz nada sozinho.
Você tem tanta culpa quanto eu.
Neste caso, por que só eu carrego o fardo?
Venha buscar o que é seu, meu bem.
Não me culpe por gostar de você.
Se você não pediu isso, muito menos eu.
Não me culpe por tê-lo sentido.
Não me culpe pelo que não aconteceu.
Agora que tento consertar o que você quebrou,
Ainda vem me perguntar o “porquê” de eu estar assim!
Assim como, querida?
Sinto-me perfeito, sinto-me bem
Como há tempos não me sentia.
O que houve? O feitiço acabou?
Você não me faz mais rir?
Não estou mais a seus pés?
Seu tempo passou, querida.
É chegada a hora de dizer adeus.
Você já pegou o que podia,
Agora deve prestar contas sobre como usou.
Não, querida, você não pode ficar mais um pouco.
Agora a pressa é minha.
Meu coração diz que esperou demais,
E está mais do que na hora de passar a próxima da fila.
Comigo, meu bem, é assim.
Meu amor é como um fio
Onde andorinhas vêm pousar.
Algumas ficam por uns momentos.
Algumas chegam a fazer um ninho.
Outras vêm só para sujá-lo.
Assim, meu bem,
Não me pergunte por que mudei.
Meu amor é sempre o mesmo.
As andorinhas é que mudaram.

?/?/1999

Apologias

à Carol

Vê?
As folhas no arvoredo farfalham.
O vento que as move não sabe disso
Nem se importa. Só sabe que tem de ir.
Na sua infindável via de ser,
Mover as folhas é só uma conseqüência.
O vento não sabe de onde vem
Nem para onde vai.
Sabe que no meio do caminho
Havia folhas
E elas se moveram quando ele passou.
Ele teria passado com ou sem as folhas.
Para ele foi só um atraso.
Que culpa tem ele delas estarem ali?
Que culpa tem ele delas terem se movido?
Que culpa tem ele se algumas delas caíram?
Que culpa tem ele se a árvore
Sem folhas
Morreu?
Assim são as coisas.
Às vezes, mesmo sem querer,
Cometemos crimes contra a vida.
Entramos na vida de alguém,
Acabamos com a sua tranqüilidade,
Bagunçamos, destruímos,
E quando finalmente somos tudo que ele ou ela tem
Seguimos em frente como o vento.
Sinto muito. É tudo o que tenho a dizer.
Sinto muito.
Minhas folhas caíram.

?/?/1999

Carolina

à Carol

Tu com teus olhos perolados
A mim me fizeste encantar
Teus lábios como que de poema transladados
A mim não permitem outra coisa senão te amar
Graças dou eu depois de tantos amores acabados
Ter tido a chance de um dia te encontrar

Se de mim, Carolina, escravo fizeste
Foi de amor, do teu amor, do qual dependo
Mesmo se tal intenção nunca tiveste
De te amar, de querer-te, não me arrependo
Se porventura distância de mim um dia quiseste
Não queiras tal, pois hei de acabar morrendo

Ante ti o meu amor sobeja
Amor esse que não posso mais conter
Conter esse sem que tu veja
Conter esse sem que eu venha a morrer
Deus queira que teu amante eu seja
Antes de tal amor esmoecer

Oh, Carolina, onde estás?
Queira eu o teu amor profundo
Sem ti minha alegria volveu atrás
E o amor, meu doce amor, fugiu do mundo
Agora nem lembranças meu coração traz
E meu espírito cai, conhecendo do poço o fundo

Mas chega! Da tristeza nem mais mesmo sei o nome
Depois de ti, só de ventura sou feito
O fogo de meu fero amor me consome
A chama fugaz arde em meu peito
Somente do teu amor eu tenho fome
Desejo tal que não me deixa descansar no leito

Minha alma ante tal possibilidade se aquece
Que por tal amor também estejas sendo consumida
Toda dúvida e indagação se arrefece
Amo-te mais que a minha própria vida
Do amor e de tudo mais que se conhece
Paixão maior que essa nunca foi sentida

Agora, eu tento transcrever a essas pobres linhas
O que eu, poeta, temeroso sinto
A ti, Carolina, as emoções minhas
(Se o contrário te disser é porque minto)
Para que certeza eu tivesse de que certeza tinhas
Do amor, do fero e doce amor que por ti sinto.

?/?/1999 – o primeiro poema que eu escrevi na minha vida.

As Duas Faces de uma Alma

O Homem e o Poeta

Parte I: A Revolta do Homem

Cale-se em mim
Ó Poeta desolado
Não queira eu tu
Nem tu muito me queiras
Tua presença aqui
É a ferroada das abelhas
A dor que me abala
E o frenesi que me mata

Aparta-te de mim
Ó alma derradeira
Antes eu sem a escrita
Do que tu com a tristeza
O que são males para mim
Para ti são a beleza
Levaste as coisas que queria
Sem as quais não viveria

Te entrego à morte agora
Amor de ti não mais espero
Quando chegar a tua hora
Contigo estar não quero
Relutaste para ir embora
Agora vai porque eu quero
Levando o amor que me mata
E o frenesi que me cala.

?/?/1999

Parte II: A Resposta do Poeta

Que pensas tu de mim
Ó Homem descompassado
Diz para calar-me
Mas estás falando asneiras
Se sou a ferroada
Tu és a própria abelha
Me odeias e só se queixas
Não me queres, mas não me deixas

Com a escrita nunca estiveste
Nem eu se é assim que pensas
Apenas fiz o que quiseste
Com teu amor a duras penas
Porém foi tarde quando soubeste
Ser eu o escritor apenas
E não a causa da tua tristeza
Nem do amor, o qual sobejas

Assim, Homem dos Ares,
Não me culpe pelos males
Que tu mesmo cometeu
Eu sou puro, sou dos Mares
Não quero que tu me cales
Mesmo que sejas o Prometeu
Deixa-me em paz com minhas belas
Pois o que é teu é meu e delas.

Sábado

à Carol

É nestes momentos de paz
Que sinto preencher-me de saudade
Uma saudade boba – dessas que parece uma música
Que a gente ouve só na nossa cabeça
São esses momentos da vida
Que me fazem lembrar de ti
Fico assim meio dividido
Entre a vontade de correr até ti
Ou ficar em meu quarto sorrindo
Lembrando do teu sorriso
Lembrando do teu olhar (e meus olhos fitando os teus)
É tão bom estar contigo
Sentir tua mão à minha
Falar coisas em vão
Deixar o tempo passar
Deixar a noite cair
Deixar amar
Calar
E deixar-se ir.

?/?/1999

Lausiane II

Ah, amiga minha, se sentisses
A dor que eu sinto eternamente
Feliz de mim se um dia conseguisses
Entender o desconsolo dessa mente

Mas sentes sim, é só porque não a vejo
Sentir a aquilo que não vistes
Das minhas lágrimas nascer aqui um Tejo
Cujo curso parar não conseguistes

Surge agora maior que a esperança
De um dia ao amor ter alcançado
Uma dor, mais uma nova esquivança

Da ausência desse amor (ou desse fado)
E só ficou para mim esta lembrança
Que caminha agora triste ao meu lado.

?/?/1999

Manifesto à Liberdade

Mórbido é o silêncio
Dos meus brados abafados
Esperanças já perdidas
Os horrores dos meus fados
Eu canto a liberdade
Com os meus braços atados
Brados dou à anarquia
Com ímpetos controlados
Vivas à desordem
Dão versos organizados
Vamos à revolução
Ó Poetas revoltados
Com nossas armas na mão
E nossos corpos ensangüentados

A tortura de nossa alma
Provém dessa evolução
Da mentira para bondade
Da verdade à maldição
Será tal iniqüidade
Que faz nossa união?
Uns mentindo pra ter ordem
Outros pra ter solução
Somos jovens insultados
Agora prontos para a ação
Somos fumantes inveterados
Com este câncer no pulmão
Somos espíritos degredados
Guerreiros da revolução

Por que aceitar as ordens
Dos ditos “santos” por concessão?
São santos para eles próprios
Pois tão mortos quanto nós estão
Só fingem serem seres honrados
Mas melhor que nós eles não são
Antes nós sem sonhos, sem fados
Do que eles mentindo em vão
Em nome de um mundo perdido
Onde não há mais salvação
Sejamos punks, soldados
Adeus à vida de cidadão
Que haja sangue por todo o lado
Essa será nossa reação
O governo de políticos acabados
Será o altar de nossa coroação

Façamos tudo sem piedade
Por que ter pena agora então?
Sem os grilhões da derrota
Contra nós nada poderão
Façamos do bom senso a desordem
Chega, por ora, de ter razão
Não quero estar certo nem errado
Só não quero ter lutado em vão
Saber que fomos manipulados
Por “césares” que tramam a opressão
Sejamos livres, fraternos, igualitários
Em nossa língua não haverá “não”
Por um fim nestes pseudo-sábios
Ou morrer tentando até a libertação.

?/?/1999

Conjecturar

à Carol

Gosto de ficar em meu quarto
Pensando sobre nossas vidas
Pensando naquilo que foi
E no que poderia ter sido
É estranho gostar de você
Um gostar tão desgostado
Que tem gosto não sei de quê
Talvez seja isto que me faz bobo
E rir por nada quando nada há para rir
Chorar por ter vontade de sorrir
E não poder voar por não ter aonde ir
Não sei se foi teu sorriso gostoso
Livre do pesar de quem vive por alguém
Ou o olhar maroto (esse mesmo que está a olhar)
Que fazes quando tento te alegrar
Não sei com qual espinho
Veio esta rosa a me ferir
E no meu choro desolado
No meu sangue derramado
Estou agora perfumado
Por esse amor, por esse fado
E por este céu que foi um dia
De tanto brilho estrelado.

?/?/1999

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