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Ópera
Cale-se a musa!
Abrem-se agora as cortinas do mistério. O Amor, A Poesia e outras personagens dessa sátira chamada vida tomam o centro do palco. Há um certo requinte operesco na inspiração do Criador e, após o allegro por que passamos não tardará o adágio. A plateia é chamada à vida de forma a todos serem seus próprios atores e espectadores. Não admire-se o louco. A loucura, aqui, é apenas um pré-requisito.
Há uma turba que se ergue em meio ao canto. Não há mais um uníssono, e apure os ouvidos o desejoso por verdades. A confusão toma conta dos bastidores, e o elenco é chamado ao improviso. Cria-se, e cria-se bem.
A arte aqui nascida é bastarda de corações solitários e paixões mesquinhas, unidas por um laço caprichoso e vil. O Homo Sapiens transmuta-se em Homo Sum. O Homem sabe que nada sabe e apenas é. Nessa angústia de ser, ele se descobre ser pensante, vivente e amante. É o poeta primordial em seu canto de fantasia.
Faz-se o silêncio. De um lado, estão todas as ideias de Platão: Honra, Sabedoria, Amor, Coragem e Alegria. Do outro, os figurantes e coadjuvantes de nossa realidade terrena: o desejo, a inveja, as paixões, os eufemismos. Há toda uma gama de poetastros e farsantes tentando atrair a atenção para seus cantos, mais pelo volume que pela beleza. O Poeta, o verdadeiro, está quieto a um canto. Ele cria e deixa-se absorver pela criação. Sob seus dedos movem-se estrelas, criam-se destinos e histórias. Ele é rei, e seu reino é a poesia.
Mefisto ri-se a um canto, enquanto Fausto, na agonia, o ignora. Otelo perdeu-se por Desdêmona, e Orfeu vai em busca de Eurídice. Werther chora, prestes a dar cabo ao que será destino de muitos após ele. A ignomínia de seus corpos os abandona ao vento. Deixemos, pois, os laços que na vida nada valem e amemos. Nada muda e nada acontece, tudo fica como antes.
Acendam-se as luzes:
Romeu vive.
26/03/2001
Cartas à Sofia II
Sinto-me tomado de um remorso que corrói a alma como ferrugem. Esse remorso tardio – a bem da verdade, não tão tardio assim – vindo não sei de onde, querendo não sei o quê, entrou-me no peito como um velho conhecido cuja companhia nos incomoda, mas, indiferente a nossos tormentos, sempre arranja assunto para mais um “dedinho de prosa”.
Creio estar tomando consciência de algo visível para todos os outros ao meu redor: meus ideais ruíram. Se não de todo, ao menos em sua maioria. Volto a afirmar que os ideais são como flores de papel que o vento leva nos dias de tormenta. Explico-me. Os ideais são muito bonitos, mas, quando a situação complica e estamos com a corda no pescoço, logo eles vão embora.
Temo estar afastando-me de um caminho que, fora ideais e besteiras como eles, julgo correto, ou ao menos saudável. Temo por mim, pelos que me amam, pelos que me odeiam (sim, pois nem mesmo o ódio prescinde de um objeto) e principalmente por minha arte. Que será de meus poemas se não puder escrevê-los?
No entanto, corrijam-me os especialistas, vida saudável não combina com a arte. Parece-me que os licores e os vapores dos narguilés são tão necessários à criação quanto a pena, o papel, os amores. Os românticos morriam cedo devido a sua vida boêmia e, mesmo um século depois, os modernistas mantinham os mesmos costumes e se viveram mais agradeçam a nossa medicina mais evoluída, não ao seu estilo de vida.
Talvez, eu esteja só um pouco melancólico.
Talvez,
eu esteja só envelhecendo.
01/03/2001
“Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso. Viver não é preciso.’” – Fernando Pessoa
Com essa frase, Fernando Pessoa inicia suas “Palavras de Pórtico”, uma nota publicada pela primeira vez na primeira edição do volume Fernando Pessoa – Obra Poética. Como esse é o primeiro post de meu blog, achei interessante utilizá-la igualmente como portal de entrada para o meu mundo da poesia. Contudo, talvez tal frase tenha uma amplitude ainda maior do que aquela que normalmente podemos perceber.
Fernando Pessoa
“Preciso” pode ser visto como sinônimo de “necessário”, tal qual o faz Pessoa, completando com a idéia de que “Viver não é necessário, o que é necessário é criar”. Por outro lado, podemos vê-la igualmente como a qualidade daquilo que possui precisão, exatidão. Uma rápida consulta ao dicionário nos mostra essa duplicidade:
preciso adj. 1. Exato; certo; rigoroso. 2. Necessário. (extraído de Minidicionário Luft – Ed. Ática)
Assim, reinterpretando a frase das Palavras de Pórtico, talvez a frase dos ditos navegadores ganhe maior conexão conosco nesses tempos em que as grandes navegações não mais se dão ao longo dos sete mares. Navegar é exato. Viver não é exato. Explico-me.
Na navegação (ainda que eu seja um bicho da terra e, portanto, tenha parcos conhecimentos na área), podemos efetivamente contar com instrumentos (bússola e astrolábio antes, GPS hoje) que permitem sabermos exatamente de onde viemos, onde estamos e para onde vamos com um enorme grau de exatidão, ainda que a única coisa que possamos divisar no horizonte sejam as nuvens da tempestade à caminho. Na vida, bem, quem dera tivéssemos algo semelhante… Assim, definitivamente, navegar é algo que pode ser feito de forma precisa, exata. Viver, na melhor das hipóteses, é intuição. Peço aqui que não induzam essa afirmação ao absurdo, pois, obviamente, ela não será verdadeira. Agora, aquele que me disser que consegue efetivamente prever seus dias tal qual um navegador planeja sua rota, sem estar mentindo, seja para mim, seja para si próprio, sinta-se à vontade para contestá-la.
Com essa idéia, reinterpreto uma outra frase que escrevi, inspirado em Pessoa, há alguns poemas atrás: “Escrever é preciso. Amar não é preciso.” Podemos medir em versos, sílabas, rimas, estilos e em outras tantas possibilidades os meus escritos. Qual a medida, contudo, que podemos usar para amar? Escrever pode ser algo exato. Amar, por outro lado, jamais será.

