Ópera

Cale-se a musa!

Abrem-se agora as cortinas do mistério. O Amor, A Poesia e outras personagens dessa sátira chamada vida tomam o centro do palco. Há um certo requinte operesco na inspiração do Criador e, após o allegro por que passamos não tardará o adágio. A plateia é chamada à vida de forma a todos serem seus próprios atores e espectadores. Não admire-se o louco. A loucura, aqui, é apenas um pré-requisito.

Há uma turba que se ergue em meio ao canto. Não há mais um uníssono, e apure os ouvidos o desejoso por verdades. A confusão toma conta dos bastidores, e o elenco é chamado ao improviso. Cria-se, e cria-se bem.

A arte aqui nascida é bastarda de corações solitários e paixões mesquinhas, unidas por um laço caprichoso e vil. O Homo Sapiens transmuta-se em Homo Sum. O Homem sabe que nada sabe e apenas é. Nessa angústia de ser, ele se descobre ser pensante, vivente e amante. É o poeta primordial em seu canto de fantasia.

Faz-se o silêncio. De um lado, estão todas as ideias de Platão: Honra, Sabedoria, Amor, Coragem e Alegria. Do outro, os figurantes e coadjuvantes de nossa realidade terrena: o desejo, a inveja, as paixões, os eufemismos. Há toda uma gama de poetastros e farsantes tentando atrair a atenção para seus cantos, mais pelo volume que pela beleza. O Poeta, o verdadeiro, está quieto a um canto. Ele cria e deixa-se absorver pela criação. Sob seus dedos movem-se estrelas, criam-se destinos e histórias. Ele é rei, e seu reino é a poesia.

Mefisto ri-se a um canto, enquanto Fausto, na agonia, o ignora. Otelo perdeu-se por Desdêmona, e Orfeu vai em busca de Eurídice. Werther chora, prestes a dar cabo ao que será destino de muitos após ele. A ignomínia de seus corpos os abandona ao vento. Deixemos, pois, os laços que na vida nada valem e amemos. Nada muda e nada acontece, tudo fica como antes.

Acendam-se as luzes:

Romeu vive.

26/03/2001