Cartas à Sophia I

Escrevo-te porque padeço.
Padeço de um mal que chamam amor.
Um amor, vil, vago e vão.
Dói-me o peito numa ferida latejante
Ora a lembrar-me a traição,
Ora a rejeição.
Sinto a dor como quem sente o ferro em brasa
A cauterizar uma ferida aberta.

Minha dor não é orgulho.

Como pode ter orgulho o que não tem o amor da mulher amada?
Lamento, isso sim.
Lamento por ser vário,
Por enganar uma alma que nada fez para merecê-lo,
Por causar aflição do mesmo modo que me afligem
E lamento por novamente sujar os versos com tristezas.

Lamento,

A vida não é justa,

E ninguém disse-me que não era.
Há corações demais para o pouco amor do mundo,
E lágrimas demais para a vida que me resta.

Escrever é preciso.

Amar não é preciso.

Escrever e sofrer.

A Arte é tudo,
E o resto é nada.

23/02/2001