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Televisão em Preto-e-branco

Por justiça tomam iniqüidade
Por sabedoria tomam frieza
Por viver, fidelidade
Por luxúria tomam beleza
E os justos e os injustos
Sem caminho se vão
Caminhando lado a lado
O amor e a perdição
Essa é a justiça dos homens
Essa é a sua união
Uns morrendo de fome
Enquanto outros vêem televisão.

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Sharon

à Sharon

Há um canto em meio a tantos outros cantos
Que não deixa por dor ser alcançado
Esse canto de tanto ouvir meus prantos
Já se faz mais um amigo lado-a-lado

Sendo amigo ele cobre com seus mantos
A tristeza que o amor tem me causado
Traz alegria e leva os sonhos tantos
Que deixaram o meu coração cansado

E esse amigo eu busquei no feminino
Sexo por ter “natura” toda em graça
E um bem para minha alma maior faça

E um poema para ela assim termino
O amor, a vida fútil, tudo passa,
Mas a amizade dura e o peito enlaça.

09/03/2001

Réquiem à Beleza

A aquela que por simples semelhança
Lembra muito o envoltório da amada
Seus momentos de raiva ou temperança
São os mesmos daquela outra alma cantada

Dessa alma o poeta não se cansa
De fazer coisas líricas, toada
Mais bela eu já canto na esperança
De alcançar no coração a linda fada

Se um dia Deus sorrir para minha alma
Por graça eu tornar-me merecedor
De maior feito que ir ao Bojador

Manterei no coração a maior calma
Expulsarei de meu peito essa dor
Gozarei num corpo livre um novo amor.

08/03/2001

Pseudo

Quem me dera ter uma certa atenção
Dos olhos tão brilhantes de uma dama
Meu peito, então, encher-se-ia de emoção
E seu calor viraria uma chama

Esses olhos que me encantam o coração
Pelos quais o meu peito todo inflama
Tão cruéis, pois nenhuma chance dão
Ao poeta que profundo e só os ama

Pois ela tem nos olhos esmeraldas
Por sua pele e sua boca é toda bela
E que são pelas ninfas invejadas

Se eu penso num amor eu penso nela
Minha pena e minha lira conquistadas
Foram. Alma e emoção são todas dela.

02/03/2001

Cartas à Sofia II

Sinto-me tomado de um remorso que corrói a alma como ferrugem. Esse remorso tardio – a bem da verdade, não tão tardio assim – vindo não sei de onde, querendo não sei o quê, entrou-me no peito como um velho conhecido cuja companhia nos incomoda, mas, indiferente a nossos tormentos, sempre arranja assunto para mais um “dedinho de prosa”.

Creio estar tomando consciência de algo visível para todos os outros ao meu redor: meus ideais ruíram. Se não de todo, ao menos em sua maioria. Volto a afirmar que os ideais são como flores de papel que o vento leva nos dias de tormenta. Explico-me. Os ideais são muito bonitos, mas, quando a situação complica e estamos com a corda no pescoço, logo eles vão embora.

Temo estar afastando-me de um caminho que, fora ideais e besteiras como eles, julgo correto, ou ao menos saudável. Temo por mim, pelos que me amam, pelos que me odeiam (sim, pois nem mesmo o ódio prescinde de um objeto) e principalmente por minha arte. Que será de meus poemas se não puder escrevê-los?

No entanto, corrijam-me os especialistas, vida saudável não combina com a arte. Parece-me que os licores e os vapores dos narguilés são tão necessários à criação quanto a pena, o papel, os amores. Os românticos morriam cedo devido a sua vida boêmia e, mesmo um século depois, os modernistas mantinham os mesmos costumes e se viveram mais agradeçam a nossa medicina mais evoluída, não ao seu estilo de vida.

Talvez, eu esteja só um pouco melancólico.

Talvez,
eu esteja só envelhecendo.

01/03/2001

Chuva

Certo dia
Numa mesa de bar
Em uma cidade cujo nome eu prefiro esquecer
Filosofei sobre a vida
Meus pensamentos voaram
Junto com a fumaça do cigarro
A chuva caía
E molhava tudo ao redor
Nesse momento
Entendi porque os dias de chuva são tristes e melancólicos
Os pingos de chuva
São como lágrimas
Lágrimas muitas vezes caladas e veladas
Que Deus se encarrega de derramar por nós.

Pinheira, 28/02/2001

Cartas à Sophia I

Escrevo-te porque padeço.
Padeço de um mal que chamam amor.
Um amor, vil, vago e vão.
Dói-me o peito numa ferida latejante
Ora a lembrar-me a traição,
Ora a rejeição.
Sinto a dor como quem sente o ferro em brasa
A cauterizar uma ferida aberta.

Minha dor não é orgulho.

Como pode ter orgulho o que não tem o amor da mulher amada?
Lamento, isso sim.
Lamento por ser vário,
Por enganar uma alma que nada fez para merecê-lo,
Por causar aflição do mesmo modo que me afligem
E lamento por novamente sujar os versos com tristezas.

Lamento,

A vida não é justa,

E ninguém disse-me que não era.
Há corações demais para o pouco amor do mundo,
E lágrimas demais para a vida que me resta.

Escrever é preciso.

Amar não é preciso.

Escrever e sofrer.

A Arte é tudo,
E o resto é nada.

23/02/2001

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