Monólogo do Amor Ambíguo

a Renato

Aqui te chamo, meu caro amigo,
Para de um canto tomar parte
Se na vida nada se faz sozinho
Se faz ainda menos nesta arte
E como segues igual caminho
E o tédio e a rotina já te farte
Tomarei do verso calmo abrigo
Deus me dê o engenho e Marte

Pergunto então, meu companheiro
Se engano tal já foi sentido
Pelos que dizem ter um amor
A ti direi: – Fui iludido
Do remorso já não sinto a dor
E feito tal foi conseguido
Sem ter pra si nem o primeiro
Nem o segundo amor por esquecido

Como pode então coexistir
Numa mesma diversa realidade
Um certo amor e outro incerto
Sem ter nenhuma fidelidade
Querer um longe e outro perto
Quando já é inversa a verdade
Como posso então mesmo sentir
Amor confuso e tamanha variedade

Por onde anda agora minha moral
Ou dos sentimentos minha segurança
Que tanto me fizeram controlar
O meu Amor e amores na esperança
Fútil de, no fim, ir encontrar
A tempestade, depois minha bonança
Num indo e vindo sem igual
Nem mesmo nos meus sonhos de criança

Como posso ser eu o alvo
De tamanha desgraça e sentimento
Tendo o coração dividido em dois
Já que um amor me causa encantamento
Contentamento me causa o outro pois
Para mim ambos estão no firmamento
Por nem um nem outro serei salvo
Já vou gasto, já nem reles pensamento

E pensas tu que consciência
De tal fato um dia jamais tive
E agi, por assim dizer, normal
Lamento, amigo, me contive
Por ânsia de amar já sem igual
Desconhecimento para mim retive
Mesmo sem ter dos amores a ciência
Isso faz parte das tormentas do que vive

Entendes agora o coração
Do bardo triste, naufragado
Nas emoções que se fazem oceano
Caminho agora a teu lado
A um epílogo que é do fundo o pano
De um dos corações fui exilado
Do outro sou apenas ilusão
Um outro sol, eu busco, iluminado

Pois não pode o constante assim viver
Na inconstância de umas almas loucas
Sublevadas pelo doce desengano
De ao poeta possuir e coisas poucas
Que parte fazem do fraco corpo humano
Pobres almas! Terão as vozes roucas
Se tentaram ao poeta a si prender
Com suas almas e suas paixões tão ocas

Eu canto livre, e meu canto é mais belo
Por ter alma e coração aceso
Nas asas de um anjo tão distante
Que tem do amor o arco teso
Minha vida então, ventura errante,
Que fez morada no Peloponeso
Tem na poesia seu rastelo
E eu sou mais livre por querer ser preso

Termina aqui esse monólogo
Que do amor pouco ou nada esclareceu
Mesmo em verso, estrofe e rica rima
Em sua alma você bem compreendeu
O que eu te disse, não foi (coisa de prima)
Pois o ponteiro de minha bússola se perdeu
E tu conheces desse poema o prólogo
E o epílogo você mesmo o concebeu.

17/02/2001-18/02/2001