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Se andar…

Se andares por aí
E acaso veres um poeta
Dá-lhe uma moeda
Por um soneto para ti

A redondilha consegui
Pela perdida régua
Abri mão de minha terra
Pois outra terra vi

Abri mão de ser amado
Do calor e belo fado
Que o destino reservava

Pois caminhou deste meu lado
Um ser mais belo, encantado
E quando eu vi já o amava.

22/02/2001

Ser = Nada

O vento cessa
Na rua, pessoas andam de um lado para o outro
Apressadas, preocupadas
Vivendo suas realidades pessoais
Todas elas foram as massas
A Massa
Seja ela de ricos ou pobres
Cultos ou iletrados
Todas estão juntas
Juntas na aflição
Juntas no pecado
E no entanto hostis umas às outras
Essa hostilidade
Essa cega e inútil hostilidade
É uma forma de não serem feridas
Correção:
Uma forma de não serem ainda mais feridas
Pelo seu próximo
Ou por si mesmas
E voltam para suas casas
Seus filhos
Seus problemas
Todos buscam carinho
E só encontram escuridão
Todos estão sozinhos
Sós na multidão
Na multidão
Pois nem sempre estar com alguém
É antônimo de solidão.

22/02/2001

1927-1953

A vós que se dizeis mais socialistas
Que qualquer socialista nesta terra
Saibam pois que não se pode em meio a guerra
Decidir nas correntes populistas

Pois as reformas de antes já são vistas
Nos braços do que cegamente ferra
Os campos e, na fome, sede, encerra
Da verdade e da história suas pistas

Mas não descanse aquele que ainda canta
No peito a mais antiga das verdades
A quem a ditadura cega espanta

O destino vingará as mortandades
Pois a força maior já se levanta
E tomará a todo meio as cidades.

17/02/2001

Nota: 1927-1953 – período stalinista na Rússia

Lírica Sina

a um certo triângulo amoroso

Mais claro é o que para si levanta
No céu um primor mais estrelado
Pois Amor só conhece o que o amor encanta
Seja feio, ou ainda belo, distante, ou a teu lado

O certo amar agora tem um preço
E o incerto para si já tem também
Não basta pelo certo ter apreço
Ou o incerto não amar ninguém

Pois amor que é vago, triste, vário
Não muda e na vida arrefece
Ainda seja um dos seus amantes ário
Enquanto o outro na tristeza envelhece

O amor, sombra cega independente
Promete ao amante ser o céu
Mas ao dizer tem por saber mais consciente
Que nem ao menos será amor fiel

E assim vai cego o triste desamor
Que em certo tempo chegou a encantar
Hoje só é um poema, peito em dor
Tristeza alheia, apenas um cantar

Pois pior que ser no amor desamparado
É estar no amor se iludindo
Um coração puro ter para teu lado
E do outro lado ver algum mais lindo

É o que passa o poeta tristemente
Cantando sua vida num poema
Numa ode, numa lira, num soneto mente
Sendo a honra sua desgraça, e ela o seu lema

Mas não pode na vida ser tranquilo
O que tem para si dois corações
Um fatalmente estará a destruí-lo
E o outro: beijos, simples ilusões

Quisera eu poder ter terminado
Com um deles, ou com minha vida então
Já não posso, tenho o coração gelado
Pela vida (pela mais doce ilusão)

Se não posso a minha vida dar um fim
E para o amor já não há mais outro tema
Eu fico aqui, deixo minha vida assim
E termino, por agora, esse poema.

16/02/2001

Soneto do Arrependimento

à minha consciência

Triste aquele que de vinho embriaga
Seus amores na mais doce ilusão
Vinho é água; a chama do amor apaga
Deixando só o triste e vago coração

Deus, errei, pois vi algum amor na praga
Que é a embriaguez rancorosa da paixão
O amor se foi; A beleza já é vaga
Solidão mata, despedaça a razão

Quisera ter a meu lado o retorno
Do amor que na loucura abandonei
Por um lúdico e fútil sonho morno

Perdão pelo pecado pedirei
Perderei de meu orgulho o adorno
E então por sobre a pena chorarei.

13/02/2001

La Bella Donna

A aquela que ao poeta pobre encanta
Eu dedico mais um tom de minha arte
Ontem distante e agora grande parte
Desta alma que de amá-la se espanta

O amor e agora já a beleza tanta
Devem ter um certo augúrio em Marte
Dela não pode ser o amor a parte
Nem mesmo ser de sua sombra a manta

Pois essa bela que ao poeta atordoa
“Bella Donna” saída desta tela
Encanta olhos; com pensamentos voa

Que seja pois o coração que é dela
Casa onde melodicamente soa
Das toadas do amor uma mais bela.

12/02/2001

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