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Camila
à Camila dos Reis
Certas vezes, enquanto vivemos
Algumas pessoas se destacam das outras
Muitas nem se dão conta disso
Individualmente tranquilas vão vivendo
Longe das tormentas do mundo
Assim, quase inconscientes
De algum modo essas pessoas
Olham o mundo de uma outra forma
Sentindo que o amanhã é mais que um outro dia
Realmente, tu és uma dessas pessoas
E agradeço por saber que serás amiga
Inda nos separe a distância ou talvez o cruel fado
Sempre estarás aqui,
espiritualmente a meu lado.
12/03/2001
Boêmio
Sinto agora a ausência de inspiração
Há uma vontade inerente de fazer algo
Criar algo
Meio angústia e desespero
Existe a idéia latente de criar um poema
Que não nasce
Por maior que seja a pressão de minha veia poética
Essa angústia
Sendo um misto de dor e prazer
É quase lírica
Não fosse a total ausência de amor
Aliás
A total ausência de qualquer coisa que valha
Talvez a culpa seja minha
Por ter-me transmigrado
E agora
A única coisa que vai ao céu
É a fumaça de um cigarro
E o único refresco de minh’alma
Um copo de cerveja.
12/03/2001
Sharon
à Sharon
Há um canto em meio a tantos outros cantos
Que não deixa por dor ser alcançado
Esse canto de tanto ouvir meus prantos
Já se faz mais um amigo lado-a-lado
Sendo amigo ele cobre com seus mantos
A tristeza que o amor tem me causado
Traz alegria e leva os sonhos tantos
Que deixaram o meu coração cansado
E esse amigo eu busquei no feminino
Sexo por ter “natura” toda em graça
E um bem para minha alma maior faça
E um poema para ela assim termino
O amor, a vida fútil, tudo passa,
Mas a amizade dura e o peito enlaça.
09/03/2001
Réquiem à Beleza
A aquela que por simples semelhança
Lembra muito o envoltório da amada
Seus momentos de raiva ou temperança
São os mesmos daquela outra alma cantada
Dessa alma o poeta não se cansa
De fazer coisas líricas, toada
Mais bela eu já canto na esperança
De alcançar no coração a linda fada
Se um dia Deus sorrir para minha alma
Por graça eu tornar-me merecedor
De maior feito que ir ao Bojador
Manterei no coração a maior calma
Expulsarei de meu peito essa dor
Gozarei num corpo livre um novo amor.
08/03/2001
Pseudo
Quem me dera ter uma certa atenção
Dos olhos tão brilhantes de uma dama
Meu peito, então, encher-se-ia de emoção
E seu calor viraria uma chama
Esses olhos que me encantam o coração
Pelos quais o meu peito todo inflama
Tão cruéis, pois nenhuma chance dão
Ao poeta que profundo e só os ama
Pois ela tem nos olhos esmeraldas
Por sua pele e sua boca é toda bela
E que são pelas ninfas invejadas
Se eu penso num amor eu penso nela
Minha pena e minha lira conquistadas
Foram. Alma e emoção são todas dela.
02/03/2001
Cartas à Sofia II
Sinto-me tomado de um remorso que corrói a alma como ferrugem. Esse remorso tardio – a bem da verdade, não tão tardio assim – vindo não sei de onde, querendo não sei o quê, entrou-me no peito como um velho conhecido cuja companhia nos incomoda, mas, indiferente a nossos tormentos, sempre arranja assunto para mais um “dedinho de prosa”.
Creio estar tomando consciência de algo visível para todos os outros ao meu redor: meus ideais ruíram. Se não de todo, ao menos em sua maioria. Volto a afirmar que os ideais são como flores de papel que o vento leva nos dias de tormenta. Explico-me. Os ideais são muito bonitos, mas, quando a situação complica e estamos com a corda no pescoço, logo eles vão embora.
Temo estar afastando-me de um caminho que, fora ideais e besteiras como eles, julgo correto, ou ao menos saudável. Temo por mim, pelos que me amam, pelos que me odeiam (sim, pois nem mesmo o ódio prescinde de um objeto) e principalmente por minha arte. Que será de meus poemas se não puder escrevê-los?
No entanto, corrijam-me os especialistas, vida saudável não combina com a arte. Parece-me que os licores e os vapores dos narguilés são tão necessários à criação quanto a pena, o papel, os amores. Os românticos morriam cedo devido a sua vida boêmia e, mesmo um século depois, os modernistas mantinham os mesmos costumes e se viveram mais agradeçam a nossa medicina mais evoluída, não ao seu estilo de vida.
Talvez, eu esteja só um pouco melancólico.
Talvez,
eu esteja só envelhecendo.
01/03/2001
Chuva
Certo dia
Numa mesa de bar
Em uma cidade cujo nome eu prefiro esquecer
Filosofei sobre a vida
Meus pensamentos voaram
Junto com a fumaça do cigarro
A chuva caía
E molhava tudo ao redor
Nesse momento
Entendi porque os dias de chuva são tristes e melancólicos
Os pingos de chuva
São como lágrimas
Lágrimas muitas vezes caladas e veladas
Que Deus se encarrega de derramar por nós.
Pinheira, 28/02/2001
Cartas à Sophia I
Escrevo-te porque padeço.
Padeço de um mal que chamam amor.
Um amor, vil, vago e vão.
Dói-me o peito numa ferida latejante
Ora a lembrar-me a traição,
Ora a rejeição.
Sinto a dor como quem sente o ferro em brasa
A cauterizar uma ferida aberta.
Minha dor não é orgulho.
Como pode ter orgulho o que não tem o amor da mulher amada?
Lamento, isso sim.
Lamento por ser vário,
Por enganar uma alma que nada fez para merecê-lo,
Por causar aflição do mesmo modo que me afligem
E lamento por novamente sujar os versos com tristezas.
Lamento,
A vida não é justa,
E ninguém disse-me que não era.
Há corações demais para o pouco amor do mundo,
E lágrimas demais para a vida que me resta.
Escrever é preciso.
Amar não é preciso.
Escrever e sofrer.
A Arte é tudo,
E o resto é nada.
23/02/2001

