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Sílvia

Não tenho a pretensão
De tornar-me inesquecível
Muito menos de ser
O alvo das atenções
Pois creio a pena não valeria
Desperdiçar comigo
Teu precioso tempo

Porém, se em meio
A essa grande confusão
Em que todos nós vivemos
Sentires que necessidade há
De teres alguém contigo
Olhes para o lado
E se veres cabisbaixo
Esse humilde poeta
Não hesites em chamá-lo
A solução pode até
Não estar com ele
Mas mesmo após tantas derrotas
Tantos amores e desamores
Um sorriso
Ao menos um sorriso
Ele há de te dar.

?/?/2000

Soneto Transcendental

Eu troco uma paixão por uma vária
Existência indagativa e poética
Pois na vida nada vale minha ética
Se de todo em beleza ela for ária

Entre os meus eu já sou chamado pária
Por ter alma e natureza toda eclética
Encantei dos amores a cinética
Encantei, por de todo ela ser vária

E assim termina, assim se dá por finda
Minha vida, minha sina e certeza
Das quais fiz uma existência toda linda

É o fim, mas minha morte não é ainda
Pois quem vê, como eu vi, vital beleza,
Eterno, noutro plano, vive ainda.

?/?/2000.

Para a introdução do livro “A Estrela da Vida Inteira”, do grande Manuel Bandeira.

Abaixo às introduções poéticas
Às introduções enfadonhas
Às introduções que tentam embelezar o que já é belo
Que tentam atrair o brilho para si
A poesia não precisa ser introduzida
Não precisa ser explicada
A poesia precisa ser vivida, respirada
Comida com pão e manteiga no café da manhã
Abaixo às introduções
Passemos direto à poesia pura e simples.

?/?/2000

Conclusão

Terminei mais um poema
A caneta, não a pena,
Deita por sobre o livro
O trabalho do poeta está terminado
Resta o coração
Resta a alma
Restam os restos
Tão restos
Que já não merecem serem contados.

?/?/2000

Poema Operário

Nasceu João Proletário
João, operário, na lama viveu
João fez promessa, João tem rosário
João tem seu fado e a fé que se deu

João sai andando cantando a cantiga
Outrora amiga na fria manhã
João trabalha e talvez consiga
Fazer de sua sina os bens de sua irmã

João dá duro, João se acaba
João se lava na labuta do dia
João se ria (por dentro chorava)
E ter esperança já não conseguia

João se casa (e volta pra casa)
João já ama (ninguém o amava)
E de João nascia (e João chorava)
Outro corpo, um asilo, a uma alma operária

João envelhece, João teria
A experiência nutrida com pão, água e dor
João enfraquece, ele adoecia
E João perdia de sua vida o sabor

A vida enegrece; já chora a família
Destruída, desnutrida; reza o filho varão
À memória de João, já apodrecida,
E o corpo (tão pouco) jaz morto no chão.

?/?/2000

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