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Cansaço

Estou cansado de viver como um garoto urbano cantando a tristeza alheia sem me importar com a dor

A dor não é caminho
Não é berço, não é canto
É só a falta de carinho
Adicionada ao pranto

Estou cansado de viver como um garoto urbano cantando a tristeza alheia sem me importar

Seu coração não é brinquedo
Nem sua vida é diversão
É só dor, amor, desejo,
E não um filme na televisão.

Estou cansado de viver como um garoto urbano cantando a tristeza alheia

Se você está tão triste
Se você se sente acabado
Não me envolva em sua vida
Nem se sente ao meu lado

Estou cansado de viver como um garoto urbano cantando a tristeza

Eu já sou triste o suficiente
E minha tristeza não é música
Pra ser ouvida ou ser cantada
Mas só vivida nessa vida lúdica

Estou cansado de viver como um garoto urbano cantando

Minha voz já está rouca
O meu temor, conhecido
A inspiração já tenho pouca
Estou morrendo por ter vivido

Estou cansado de viver como um garoto urbano

Essas paredes dessas casas
Já não me servem de proteção
Contra o amor, ódio ou a raiva
Ou contra o roubo do meu coração

Estou cansado de viver como um garoto

Ter uma juventude de temores
A felicidade encontrar a esmo
Só viver da vida os horrores
Vivendo o amor sem ter o mesmo

Estou cansado de viver

Essa terra é muito injusta
Para quem nela escolhe viver
Você sua, ama, luta
Sabendo que no fim irá morrer.

E o que fiz da minha vida
Foi o que fizeste com a tua
Com um pouco de favo de mel
Com um pouco de amor e ternura.

?/?/2000

Revolução Industrial

Nasceu de lampejo um novo homem
Um ser humano: desventura e desespero
E já tão cedo tal rebento tem um nome
É o novo homem “ficção e desemprego”
Um sentimento de ternura e vaidade
É o que invade o nobre peito da nação
Ao ver seus filhos, os já tão vis da sociedade,
Crescerem firmes junto aos dejetos de um lixão
Fazem florestas de concreto na cidade
E um coração de metal arde no peito
Assim o é nossa inumana sociedade
Filhos da máquina que da ferrugem já tem feito
A prole própria e os apresentam ao mundo
Agora rugem para os céus maior castigo
Pois essa prole que nasceu no mundo imundo
Sofre mais dores que os versos produzidos
E somos nós, filhos dos filhos do metal
Que devemos mudar o mundo! Nossos feitos
Farão parar o velho mundo, e o metal
Derreterá ante o calor de nosso peito.

?/?/2000

Mistura Fina

à Renato, Carolina B. e Fernanda B.

Esta noite saí com meus amigos.
Saímos sem rumo, sem destino,
Sem nada a ganhar – sem nada a perder.
Ficamos ali, nus, sem nada a esconder,
Sem virtude, sem pecado, sem mentir e sem sofrer.
Esse foi o momento mais sincero de nossas vidas.
Ali, por detrás da fumaça dos cigarros
E do cheiro de álcool que pairavam no ar,
Éramos nós mesmos, apenas nós mesmos,
E poderíamos erguer o mundo sozinhos.
Cantamos para a lua, num misto de disciplina e liberdade,
E nossas vozes ecoaram no deserto de nossas almas,
Mas agora… agora a música acabou.
As vozes uma a uma se calaram.
Restaram apenas alguns velhos veteranos
A relembrar as batalhas de outrora.
Um eco de adeus invade o coração,
E só agora nos demos conta de nosso erro.
Essas foram amizades de verão, amores de verão,
Escritas num misto de sangue e cinzas sobre a areia da praia.
Assim, dessa jornada rumo ao caos,
Trouxemos conosco lembranças surreas:
Lugares, garotas, histórias para contar,
Belezas de areia para ao vento soprar.
O destino está na mesa; as cartas, a jogar,
E como disse um amigo meu: “Só a história restará”.
Voltamos para casa, para a toca, para o lar.
Adeus às garotas, às lembranças, ao luar.

?/?/2000.

NOTA: “Mistura Fina” é o nome de um bar que existia em Laguna/SC no verão de 2000.

Saudades de Ninguém

a ninguém

Um dia enquanto vivia
Sem querer conheci ninguém
E ninguém contou-me sua vida
E minha vida contei a ninguém
No fim das contas éramos amigos
E todo dia encontrei ninguém
Das piadas de ninguém eu ria
E ninguém consolou-me quando chorei
Assim nessas idas e vindas
O meu amor declarei a ninguém
E ninguém disse que também me amava
Eu, no fim, amei ninguém
Vivi com ninguém o resto da vida
O resto da vida vivi com ninguém
Ninguém me disse os seus desejos
Os seus segredos e mentiras
Conhecia ninguém melhor que a mim mesmo
E sem ninguém eu não viveria
Mas um dia desesperei-me
Por ter chegado à temivel conclusão
Assim descobri: ninguém me traía
E toda noite chorei por ninguém
Decidi então morrer nessa vida
E ninguém sabia, por ninguém morria
E nessa morte que me leva a vida
Morri de amor por amar ninguém
(E ninguém chorava e ninguém morria).

?/?/2000

Amanda

Ah, Amanda,
Hoje quando acordava
Lembrei de uma frase tua:
“Não pense, Guilherme, aja,
Pois pensar não vai diminuir teus problemas.
Só atrasá-los, enquanto, lá fora,
O sol te espera com a esperança de um recomeço.”
Logo quem para falar em recomeço.
Você, que é a renovação em pessoa,
Que vive um dia após o outro,
Que parece ir contra toda e qualquer manifestação
De pressa, ansiedade,
Dessa coisa louca que acaba levando
Qualquer neopsicótico à loucura.
Queria ser como você, Amanda.
Só ter certeza da incerteza
Da mudança das coisas imutáveis.
Gostaria de não me preocupar com o amanhã
E deixar-me preencher pela magia
E pelas possibilidades do momento,
Aproveitar cada dia como se fosse o último.
“Que o amanhã cuide de si mesmo”.
Porém, tu és incerta como a brisa
Que do mar vinha afagar-te os cabelos.
Não sei se amanhã estarei contigo.
Não sei, Amanda, se restará um beijo
Para contar a história de um amor perdido
Que no mar nasceu e no mar teve termo.

?/?/2000

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