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As Duas Faces de uma Alma

O Homem e o Poeta

Parte I: A Revolta do Homem

Cale-se em mim
Ó Poeta desolado
Não queira eu tu
Nem tu muito me queiras
Tua presença aqui
É a ferroada das abelhas
A dor que me abala
E o frenesi que me mata

Aparta-te de mim
Ó alma derradeira
Antes eu sem a escrita
Do que tu com a tristeza
O que são males para mim
Para ti são a beleza
Levaste as coisas que queria
Sem as quais não viveria

Te entrego à morte agora
Amor de ti não mais espero
Quando chegar a tua hora
Contigo estar não quero
Relutaste para ir embora
Agora vai porque eu quero
Levando o amor que me mata
E o frenesi que me cala.

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Parte II: A Resposta do Poeta

Que pensas tu de mim
Ó Homem descompassado
Diz para calar-me
Mas estás falando asneiras
Se sou a ferroada
Tu és a própria abelha
Me odeias e só se queixas
Não me queres, mas não me deixas

Com a escrita nunca estiveste
Nem eu se é assim que pensas
Apenas fiz o que quiseste
Com teu amor a duras penas
Porém foi tarde quando soubeste
Ser eu o escritor apenas
E não a causa da tua tristeza
Nem do amor, o qual sobejas

Assim, Homem dos Ares,
Não me culpe pelos males
Que tu mesmo cometeu
Eu sou puro, sou dos Mares
Não quero que tu me cales
Mesmo que sejas o Prometeu
Deixa-me em paz com minhas belas
Pois o que é teu é meu e delas.

Sábado

à Carol

É nestes momentos de paz
Que sinto preencher-me de saudade
Uma saudade boba – dessas que parece uma música
Que a gente ouve só na nossa cabeça
São esses momentos da vida
Que me fazem lembrar de ti
Fico assim meio dividido
Entre a vontade de correr até ti
Ou ficar em meu quarto sorrindo
Lembrando do teu sorriso
Lembrando do teu olhar (e meus olhos fitando os teus)
É tão bom estar contigo
Sentir tua mão à minha
Falar coisas em vão
Deixar o tempo passar
Deixar a noite cair
Deixar amar
Calar
E deixar-se ir.

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Lausiane II

Ah, amiga minha, se sentisses
A dor que eu sinto eternamente
Feliz de mim se um dia conseguisses
Entender o desconsolo dessa mente

Mas sentes sim, é só porque não a vejo
Sentir a aquilo que não vistes
Das minhas lágrimas nascer aqui um Tejo
Cujo curso parar não conseguistes

Surge agora maior que a esperança
De um dia ao amor ter alcançado
Uma dor, mais uma nova esquivança

Da ausência desse amor (ou desse fado)
E só ficou para mim esta lembrança
Que caminha agora triste ao meu lado.

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