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Languidez

Vem a mim, ó minha amada branca,
Pois eu quero ao meu lado
De desejo ver-te rubra.
Quero sentir em meu corpo
Teu calor, tua ternura,
Vênus de Milo toda nua
Que aos meus olhos enlangüesce.
Tu és linda, és perfeita,
Ó minha estrela da manhã.
Eu canto a ti, ó minha musa,
À tua pele, à tua alvura.
Quero perder-me em teus braços
E de desejo ver-me entregue.
Quero amar-te assim na cama
Até que então o gozo me cegue.
Quero contigo em tuas curvas
E em teus seios estar perdido.
Meus olhos secos serão lagos
Teu beijo – que leve meu abrigo.
A tua boca, minha prisão.
As tuas mãos, minhas correntes.
Eu quero ter do amor o fogo
E do desejo as torrentes.
Serás minha e serei teu.
Seremos um único desejo.
Teremos todo amor do mundo
E um orgasmo a cada beijo.

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Reinicke

à Priscila Reinicke

Certo dia, enquanto andava,
Por aí,
Perdido num amor qualquer,
Lembrei de ti
Assim, como sentir fome,
E aos poucos pela saudade fui tomado.
Lembrei de tudo que era bom
E ainda é – só que de outra forma
Uma forma mais sutil, etérea,
Quase imperceptível aos olhos estranhos.
Lembrei dos olhares, das conversas,
Das eternas discussões sobre o caráter alheio,
Sobre o quanto as pessoas enganavam,
Se enganavam,
Nos enganavam,
Perdoando erros que na verdade eram os nossos próprios.
Sim, éramos amigos,
E ainda que a palavra amizade,
De certa forma tão volúvel,
Nos seja estranha e até mesmo contrária,
Ainda assim,
Distantes,
Onde o único laço seja o raro e vão pensamento,
Ainda assim estás aqui.
Ainda assim,
Amiga.

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M. B.

Sinto agora que o altivo vento pára.
Sou por triste e merencória paz acometido.
Sinto nascer um sentimento, uma navalha,
Que vem cortar-me com a leviandade do assassino.

Essa lâmina, essa amarga e sã navalha,
É a mortalha que me cobre em meu leito.
Vem me prender um sentimento de canalha,
E essa dor, sozinha e vaga, vem do peito.

Eu quero ser da minha era o Pierrot,
Um corpo triste, um coração enamorado,
Que vê sua vida nas secas lâminas de Tarot,

E a poesia de um bardo triste, naufragado,
Seja, nos símbolos e pensamentos de Rousseau,
A estrela-guia, o vento norte, o anjo alado.

?/?/2000.

Soneto Condicional

Quero amar-te em cada pensamento,
Sempre, dia-e-noite, e teu encanto
Será meu guia, meu amor. Longe do pranto
Eu viverei se tiver teu o sentimento.

Será a dor a acabar nesse intento.
Será o amor a controlar-me. No entanto,
Será a vida a perder-se – e para tanto
E só afastar-te de mim um só momento,

Pois é assim que esse poeta ama,
Pois é assim que esse poeta vive.
Quero sentir teu amor – e tu és chama

De tal modo que assim nunca estive.
Eu viverei na alegria de quem ama,
Pois amor maior que o teu eu nunca tive.

?/?/2000.

Soneto da Declaração

Mais doce é meu amor se me afigura
Como simples vazão do meu sonhar.
Por entre sonhos está o amor da alma pura.
Por entre beijos está o valor do meu amar.

Só não se tem da minha amada mais ternura
Por não poder nas horas simples perdurar
Esse amor, talvez essa desventura,
De que me valho para da vida não cansar.

Assim, não se tem do amor a ilusão,
Ou, da ilusão, a dor da despedida
Onde se valhe a fibra triste – coração.

Por ter amor e por já não ter na vida
Algo mais puro ou mais doce emoção,
Hei de amar-te e de querer-te, minha querida.

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Soneto da Dor

Ai de mim que te amo tanto
Deus quisera que não te amasse
Não teria assim da dor o espanto
Nem do amor a dor que nasce

Só seriam cinzas o desencanto
Não haveria dor que não passasse
Não teria palavras de amor no entanto
Mais feliz seria se não te amasse

E agora quando chega a despedida
E do amor termina a ilusão
Já dei minha esperança por perdida

Já fiz de cova meu coração
Já fiz de amor a dor sentida
Já fiz de alegria a desilusão.

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Soneto do Retorno

à Carol

Ela voltou e com ela as flores
E também as dores dos espinhos consumidos
Pela dor e pelo mais triste dos labores
Que é ver morrer os bem-queridos

Por ela sinto o mais puro dos amores
Entre tantos amores meus sentidos
Sem ela, meu amigo, perdem as cores
Os momentos de alegria meus vividos

Se não fosse de alegria descontente
E de semente já morto, não-vivido
Teria aqueles olhos tão somente

A mim voltados, sem tê-los esquecido,
E, em sua face, de amor, eternamente,
Teria a aqueles olhos colorido.

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Espera

Silêncio.
Porém, dessa vez, não é o silêncio de minha alma,
Nem o vazio de meu coração.
É só o telefone.
Esse azul e maldito telefone
Que insiste em não tocar.
Tuuuuuu… tu-tu-tu-tu…
É tudo que ele me diz.
Eu? Eu o quê??
É você que não toca!
Não toma conhecimento
Da saudade,
Dessa cortante e louca saudade
Que invade meu coração.
Porém, ele
Estático e impassível
Só sabe me dizer:
Tuuuuuu…
Tu-tu-tu-tu…
E vou perdendo-me por inteiro.

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Elegia Nacional

Rostos anônimos olhando no vidro.
Rostos anônimos olhando na chuva.
Rostos? Não, não mais rostos,
Apenas caras, olhos e bocas
Envoltos no anonimato de cada dia.
Trabalhadores, braços, estatísticas,
Apenas números no telejornal.
Assim são os braços fortes
Que com retumbante brado
Conquistaram o penhor dessa igualdade.
Salvem! Salvem nosso povo!
Nosso florido e amado povo
Para que não deite eternamente
Num berço esplêndido de angústia,
Nas margens plácidas da angústia.
Um povo heróico de angústia.
Ordem e Progresso.
República Federativa da Solidão.

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CaMinhando Para Algum lugar

Em homenagem ao “adorável” colégio
onde cursei o Ensino Médio, o famigerado
Colégio Militar de Porto Alegre

Sinto-me enjaulado
Eu vejo almas
Eu vejo plantas
Eu vejo um bando de vegetais
Eu vi minha sombra falar com a tua
Eu vi meu ego berrar com o teu
Vi-me andando na rua
Vi-me – e não era eu
Eu não sei por que estou aqui
Eu não sei por que não estou
Apenas estou assim
Como um pingo de chuva
Sempre a procurar o mar
Mas indo acabar no bueiro
CaMinhando Para Algum lugar.

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