Lágrimas do Adeus
Certo dia enquanto pela rua andava
Encontrei uma amiga que escondia
A um canto sua tristeza e chorava
E em soluços sem parar esmoecia
Eu por sua tristeza fui tocado
E meu andar pela rua eu parei
Fui então assentar-me a seu lado
E de um modo muito calmo perguntei:
“Que se passa, ó minha cara amiga,
Para estares tão sozinha a chorar
É acaso esta vida tua imiga
Ou então está Deus a maltratar?”
Ela então de um modo mui silente
Sua fronte para mim levantou
Pude ver sua dor, e consciente
Numa cantiga seu caso ela entoou:
“A vida foi para mim a flor mais bela
Só alegrias eu me lembro ter cantado
Quando à noite eu dormia, à janela
Eu ouvia o cantar de meu amado
“Tão felizes, eu com ele, ele comigo
Nos amávamos, e com ele um sonho tinha
Meu amado, além de amante, é amigo
Sua tristeza e sua alegria era a minha
“Todos que nos viam invejavam
O amor e a paixão que nos unia
Muitos deles também se perguntavam
Se amor tão grande eu merecia
“O amor em minha vida irradiava
Uma aura que em tudo o que eu via
A beleza eu sentia e contagiava
Ao meu redor numa corrente de alegria
“No entanto, quis destino que eu sofresse
Os males da distância e o veneno
Da vida num só gole eu sorvesse
A perturbar os espírito que era ameno
“Meu amado antes sempre a meu lado
E de quem a falta eu não conhecia
Mas caprichoso e vil humano fado
Nos separou. Para longe ele partia
“Assim como não há poeta sem poesia
Tampouco há amor sem o ser amado
Ele partiu, e com ele minha alegria
E a felicidade que ficava a meu lado
“Eu sem ele na tristeza vou viver
Como quem em sua alma sofre os danos
Nada resta para mim senão morrer
Em meu corpo de paixão e amor humanos
“Entendes tu, oh poeta inquisidor
Que se passa no interior desse meu peito
Já vai longe minha vida e essa dor
Vem agora assolar-me na agonia de meu leito”
Ao ouvir essa história eu senti
Nessa alma sua dor e eu chorei
Por todos desamores que vivi
E consolo para ela eu cantei:
“Mas não chores, ó minha cara amiga,
Sei que é dura a humana realidade
O amor e a paixão nos dão fadiga
E nem sempre a alegria é a verdade
“Nem por isso deves querer a morte
Nem tampouco chorar teu abandono
Da natureza quem está vivo sofre a Sorte
A flor que nasce na primavera cai no outono
“Hoje sentes no teu peito esta dor
Mas isso prova que teu corpo ainda vive
A esperança não morreu e o Amor
Quando é puro até à morte sobrevive.”
30/03/2001